imagem de joão maia bengala conduzindo um cadeirante

victor  na cadeira e João com a bengala estão a caminho da area de imprensaImprensa: O lado de cá dos Jogos

Os eventos testes paralímpicos têm alcançado supremacia para os atletas. Todos eles, independentemente da deficiência têm saído muito satisfeitos com as estruturas físicas das áreas de competições, principalmente no que se diz respeito aos principais instrumentos de trabalho deles, no caso: piscinas, pistas e quadras.

“Tudo o que eu já vivi e experimentei aqui, realmente está aprovado. Eu que já estive em três edições dos Jogos e em outros eventos testes, realmente estamos aqui para testar e acertar. Com certeza o Brasil está no caminho certo. Quem vir para o Brasil vai poder experimentar não só as estruturas, mas, um calor humano singular”, comentou Terezinha Guilhermina, a cega mais veloz do país, ao sair da prova de 100 metros rasos ontem, 19, no Estádio João Havelange – o Engenhão no Rio de Janeiro, durante o Internacional Open Loterias Caixa de Atletismo Paralímpico.

O nadador paralímpico Daniel Dias, durante o Open de natação, em abril, também foi enfático ao dizer que, “ainda precisa terminar algumas coisas, evento teste é sempre para apontar as possíveis falhas, mas, quanto às estruturas, estamos com padrão internacional. A piscina excelente, ainda mais com essa vista que a gente tem aqui, o pessoal não tem lá fora”, afirmou.

Mas, qual a visão dos profissionais de imprensa, que têm alguma deficiência? Será um desafio? Embora os banheiros estejam adaptados, rampas de acesso e elevadores estejam muito bem instalados nos complexos esportivos, como será a participação deles na cobertura do evento?

os dois fotógrafos estão se posicionando na area de fotos

Os dois fotógrafos conhecendo a area reservada para captação de imagens

O repórter fotográfico Victor Wang pode nos dar um parecer sobre o assunto. “Quanto às estruturas físicas, tudo bem a gente até se vira. Pede ajuda e chega lá. Mas, na mídia em geral, as portas não estão totalmente abertas para nós. Pra você conseguir alguma coisa, algum freela ou emprego em algum veículo é difícil. Tem que ter muita indicação, tem que bater muito o martelo, tem que ter um networking bom, ou, não consegue nada”, disse.

Segundo ele, o que acontece hoje em dia é que ao invés de se contratar um freela ou pessoa que tenha conhecimento no assunto, porque vive a deficiência, “as mídias optam por material já pronto, dos órgãos oficiais do evento. E dão um ctrl C ctrl V”, ressalta o fotógrafo, dizendo que além da falta acessibilidade, falta bom senso. Será que é só um bom de pernas, que sabe trabalhar? Ao te olhar, eles já te descapacitam do teu conhecimento e da tua habilidade só por causa da cadeira. É a aparência, o que faz a diferença pro cara não me ouvir ou aceitar minhas ideias?”, questiona.

Mais uma vez, esbarra-se aqui nas barreiras atitudinais. Os profissionais “bons de pernas” ou “bons de olhos”, nem sempre têm conhecimento técnico essencial para uma boa matéria sobre o assunto. Não conhecem terminologias e nem categorias usadas nas classificações. Não têm a mesma visão para fazer o público entender o que está acontecendo ali. E ainda, salvo as exceções, nem fazem descrição das imagens para aquele que não vê. Só pude entender isso durante os Jogos de Londres, onde me deparei com um locutor cego da BBC, narrando uma partida de Goalball. Eu, com meus bons olhos não entendia “bolufas” do que estava acontecendo ali e ele com muita propriedade explicava tudo ao ouvinte em casa.

O encontro com Victor para esta pauta foi por acaso. Logo que cheguei na sala de imprensa do Engenhão dei de cara com ele, que estava acompanhando, quero dizer guiando o fotógrafo João Batista Maia da Silva, que tem baixa visão (enxerga vultos) e logo de cara, me veio a dúvida: Como será que ele fotografa sem ver? Pois bem, ele dá um show atrás das lentes. Ele é um dos únicos fotógrafos com deficiência visual que cobre eventos paralímpicos. Mas, o motivo da competência dele em estar ali ficou registrada logo no início da conversa: “antes de tudo eu quero agradecer a parceria com Victor Wang. Eu preciso de parceiro, uma pessoa que possa me falar que raia o atleta tá, que roupa ele está, porque eu tenho um resíduo visual, percebo cores e vultos eu consigo perceber onde o atleta está”, explicou.

Além da Câmera João usa o celular para fotografar e neste evento está fazendo freela para Mobigraphia. “O celular me dá a possibilidade de configurar a câmera, obturador, diafragma, abertura, através de um talkback, editor de tela. Assim eu etiqueto balanço de branco e outros parâmetros. Já na câmera não tem acessibilidade eu fotografo com o instinto mesmo”, explicou João.

Ele conta que foi atleta de arremesso de peso e lançamento de dardo e disco, durante sete anos. “Isso me agregou muito. Deu a base de cada prova para saber a expressão do atleta, o que ele tem que fazer em determinada situação numa prova de 100, 400 e outras. Isso faz a diferença. Cada sentimento do atleta eu sei. O que importa pra mim é que em um dado momento da prova eu sei o que vou captar do atleta”, disse.

O que os dois esperam é que “as coisas funcionem” durante os Jogos. “Em Londres sozinho eu não passei perrengue nenhum. Era tudo funcional. É um evento pra gente que tem deficiência então, nossa participação deveria ser primordial. E as portas deveriam se abrir mais”, conclui Wang.

 

 

Fonte: Guia do Deficiente

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